Essa cidade me irrita profundamente, é uma merda de cidade. Alguém tem que dizer isso. Eu não sei como consegui viver aqui 10 anos. 10 anos inteiramente jogados no lixo. Eu não viria aqui nunca mais, nunca mais. Eu me prometi, nunca mais volto aquela merda de cidade, aquela merda de gente, aquela merda que ele chama de televisão e aquela outra merda menos fedida, mas muito fedida também, que eles chamam de teatro.
Eu não deveria ter vindo, foi tudo uma sucessão de erros, uma cilada, agora eu sei. Leila morreu, se matou. Eu tive vontade de perguntar: que Leila? Eu sabia quem era, mas pensei que ela já tinha morrido. 20 anos sem ver aquela gente toda, os maravilhosos, a classe artística, os artistas. Eu peguei nojo dessa palavra, nojo. Eu não podia ver essa gente. Há 20 anos eu rompi com isso. Eu não quero nada com essas pessoas. Eu não as odeio inteiramente, porque elas não existem por inteiro. Eu odeio os detalhes, os cacos que elas são. Essa mania repulsiva de pegar na gente, o jeito de dizer: adorei, lindo o seu trabalho, uma experiência maravilhosa. Eu não entendo como alguém pode ficar repetindo isso uma vida inteira e sorri, e se abraçam, e se beijam, e se aplaudem. Eu não deveria ter vindo, foi uma cilada.
Eu queria sair do cemitério francês, mas o casal Vila Verde me atacou, comovidos com a morte de Leila, talentosa Leila. Ela disse: pessoas como a Leila não morrem. Se matam, completei. Pessoas com uma Leila não morrem, se matam, eu disse agressivo. Eu não suportaria aquela imbecil. É cair diretamente no esgoto dessa cidade e o casal Vila Verde é tudo que eu tenho evitado nesses últimos 20 anos. Eu disse: claro, será um prazer. Ah, eu nunca frequentei restaurante frequentados por atores. Geralmente a comida é ruim. Agora estou aqui, artistas famosos. Eles se sentem gente de teatro, televisão, cinema, escritores, artistas famosos. O jantar para comemorar a estreia de Vila Verde em O Pato Selvagem de Ibsen.
Eu calculo ter aqui a minha volta uns 50 maravilhosos artísticos. Artísticos, é assim que eu gosto de chamá-los, os artísticos. Eles acreditam que porque fizeram um nome, montaram algumas peças, publicaram livros, apareceram em novelas, as suas ideias vivem nos cadernos culturais, nos debates televisivos e porque a Air France, a Shell, a Secretaria de Cultura, a nojenta Secretaria de Cultura, desconsiderou todos os prêmios possíveis, por causa disso, eles acreditam, se tornaram alguma coisa. Eu acho engraçado alguém achar que é alguma coisa nesse país.
Até hoje. Superei todos os jantares artísticos que gostam de atacar autores, mesmo que os considere independentes, e elogiá-los, porque sempre é um risco de autores decadentes na TV saírem da merda. Ah, os atores. Jantam só à meia-noite ou bem depois da meia-noite, quem estiver com eles que se foda.
Vila Verde é um idiota teatral completo. A verdade é que eu sempre odiei atores e atores televisivos como Vila Verde que se diz teatral, mas é absolutamente televisivo e atores televisivos provocam em mim um ódio especial. Ele é o melhor exemplo do que eu considero um anti-artista, totalmente desprovido de técnica, de espírito, de qualquer outra coisa. Tudo desse pedaço e tudo aniquila, Ibsen, Shakespeare, qualquer um tomba como vítima dos carniceiros da televisão, mas aqui neste país, um ator de televisão é o máximo.
Ser conhecido de um ator de televisão ou jantar com um ator de televisão é simplesmente o máximo. Principalmente se o televisivo também for teatral. Os atores televisivos não entendem nada da arte teatral. Quando muito se dão bem nessas repulsivas comédias cuja burrice é insuportável, explorando a burrice teatral desse país com aqueles gritalhões sem graça, dá mais absoluta falta de inteligência. A televisão. A televisão não forma atores, não forma porra nenhuma. A televisão é uma terrível máquina de aniquilação de gênios, uma horrorosa instituição para arruinar talentos. Essa é a verdade. E os televisivos aniquilados e mortos pela televisão pensam que conseguiram alguma coisa por causa de duas ou três novelinhas. Eles trocam a vida pela televisão. Machuca muito a falta de inteligência dos nossos atores.
Isto aqui é o sul da América, ninguém se lembra disso. Nós somos todos Joanitos, Joanitos dell’arte, zeros da arte.
Nós somos a tragédia artística que não tem nada em comum com a arte, a não ser a opção pelas festas artísticas, que definitivamente não é uma opção artística. O que eu quero dizer é que a arte morreu. Ninguém se preocupa com a arte. A arte morreu porque a arte está nas mãos de burocratas que não entendem nada sobre a morte da arte.
Prepara um jantar artístico e caímos da armadilha. Somos fracos, estamos sempre caindo em armadilhas. Eu tenho uma teoria: o homem quando lambe a fama perde o caráter. É isso. Você fica famoso e o problema da fama é que ela faz você acreditar no que os outros dizem de você. Você entra naquela paisagem azul e você vai escorregando naquela lama azul, vai rolando ladeira abaixo até se foder completamente. Eu não posso dizer que eu demorei para aprender a lição. Eu aprendi rápido, mas aprendi e fazia tudo para esquecer no dia seguinte. Esse era o problema.
O sucesso. Isso é uma regra. O sucesso não pode durar. O sucesso exige algumas coisas, exige a queda, basicamente a queda. E elas, as pessoas que acham que você é um sucesso, elas exigem que você caia no abismo. Uma queda lenta, elas querem continuar se divertindo, elas exigem isso. Exigem que você dê uma despirocada, exigem que você beba, que você tenha problemas com a droga. É bom também que você tenha problemas com a polícia por causa do problema da droga. Exigem que você entre e saia muitas vezes de clínicas para malucos, clínica de reabilitação. Eles gostam disso, não porque você está tentando sair da merda, mas porque eles estão tendo a oportunidade de sentir dó de você. Isso é o melhor para eles, a compaixão. Você precisa fazer tudo isso. O sucesso exige essas coisas e você precisa se matar também. Isso também faz parte do sucesso. Nesse sentido a minha carreira foi perfeita. Eu segui o manual certinho. Só faltava me matar, mas isso nem passa pela minha cabeça, porque sem mim, eles vivem melhor. Eu não vou deixar.
A festa está terminando. São quatro horas da manhã. Eu estou com uma vontade inexplicável de sair correndo pela praia, simplesmente correndo, correndo pelas praias dessa cidade. A pior cidade, a que eu sempre odiei, que é a melhor cidade, a melhor cidade para mim, a única cidade possível. Como essas pessoas que eu sempre odiei, sempre vou odiar, são as melhores pessoas. As únicas pessoas que prestam para ficar ao meu lado, são essas pessoas que eu odeio, que são comoventes. Como essa merda de cidade que eu odeio. Essa merda de cidade que eu odeio, mas que às quatro horas da madrugada me comove terrivelmente. Como essas pessoas que eu odeio, que eu tenho que amar.
Como essa cidade que é minha, será sempre minha. Como essas pessoas que serão minhas, exatamente como essa cidade, essas pessoas, essa cidade, essa pessoa, essas pessoas, essa cidade, estas pessoas.




cara, de que vídeo é essa frase do "Nós somos a tragédia artística que não tem nada em comum com a arte, a não ser a opção pelas festas artísticas, que definitivamente não é uma opção artística. O que eu quero dizer é que a arte morreu. Ninguém se preocupa com a arte. A arte morreu porque a arte está nas mãos de burocratas que não entendem nada sobre a morte da arte." ? To tentando achar e não acho em lugar nenhum
Obrigada por compartilhar a transcrição do texto dita tão bem pelo querido Abu. Fui do grupo Os Privilegiados e boa parte desse texto é da Patrícia Melo, do livro "O matador", inclusive a melhor frase: "O homem quando lambe a fama perde o caráter."